Capítulo 9
A sexta amanheceu cinzenta, típico da
região da Inglaterra. Henri acordou cedo e como já era de seu costume, deixou a
esposa dormir por mais uma hora. Dificilmente abria mão de suas regras, mas
Genevieve era uma das poucas pessoas que conseguia dobrá-lo. Estava começando a
achar justo deixar a esposa dormir até um pouco mais tarde, visto que sempre
iam dormir no início da madrugada. Sorriu com esse pensamento; sua esposa
estava se abrindo cada vez mais pra ele, quando o assunto era sexo.
Depois de ter seu banho preparado
pelos serviçais, Henri se arrumou e se vestiu adequadamente. Ao descer as
escadas, ouviu uma voz vagamente familiar. Encontrou Paolo e Annemarie na sala,
tomando uma xícara de chá e rindo. Ao vê-lo, Annemarie se levantou e foi em sua
direção, abraçando-o.
- Oh, Henri, finalmente resolveu
aparece! Estou lhe esperando por horas... - ela disse, dando um beijo demorado
em seu rosto, deixando a marca do batom vermelho em sua bochecha. - Como estás,
meu querido?
Annemarie era uma famosa dançarina
francesa. Tinha os cabelos vermelhos e usava roupas ousadas, deixando bem claro
a sua profissão. Conhecera Henri em uma das viagens que o príncipe fizera ao
França. Ele visitou o famoso cabaré onde dela dançava e desde então, um romance
se iniciara. Ela considerava um romance, Henri a considerava apenas como uma
aventura e uma grande amiga. Ao saber sobre o casamento do agora então Rei,
Annemarie não perdeu oportunidade e logo resolveu fazer uma visita à seu
querido amante. Sabia muito bem que ele jamais negaria hospedagem a ele,
estando casado com quem for.
Henri sorriu surpreso e a
cumprimentou:
- Vou muito bem minha cara! - Ele diz
sorrindo - Como posso ver... Você ainda está fabulosa!
Ela sorriu e deu uma volta devagar,
para que ele pudesse vê-la atentamente;
- Sim, meu bem, eu continuo. - ela
riu. - Soube que se casou... Esperava ao menos um convite, Henri. Não sabia que
me considerava tão pouco para nem me convidar ao seu casamento. – reclamou
- Foi tudo muito rápido, minha
querida. Perdoe-me. - ele disse - Mas diga-me o que a trouxe a Modrieva.
Acredito que não foi exclusivamente por minha causa. - Sorriu de lado.
- Realmente não foi. - ela disse,
sentando-se com ele ao seu lado. - Ou melhor, não foi só por sua causa, Vossa
Majestade, mas foi também para conhecer a grande moça que fisgou vosso coração.
Nem eu mesma consegui, e sabes que tentei. Quem é a felizarda?
Ele sorriu pra ela e se dirigiu a
Paolo pedindo que chamasse sua esposa. Paolo sai das vistas deles. Henri e
Annemarie continuaram conversando calorosamente. Ela não perde a chance de
flertar quase em todas as frases de pronuncia. Henri a corresponde com sorrisos
e falas lisonjeiras. Paolo encontra Genevieve e Virginie na biblioteca e lhes
anuncia a visita. A irmã do rei torce o rosto ao ouvir o nome da dançarina.
Genevieve percebe a repulsa e diz que estará na sala em breve. Assentiu a
resposta, o conselheiro as deixou.
Curiosa pela expressão da cunhada,
Genevieve se aproxima de Virginie para investigar.
- Quem é Annemarie? - perguntou,
olhando atentamente pra cunhada
- Vamos nos sentar primeiro, sim? -
Ela responde. Genevieve assente apreensiva. Sentaram num grande sofá de veludo
vermelho com braços e molduras douradas.Quando se acomodam Virginie começa a
falar. - Annemarie é uma ex-amante de meu irmão. Um caso do passado que nos
atormentou por anos. Mamãe e eu não a suportávamos, mas tínhamos que aguentar
por não causar discórdias com Henri. Papai era totalmente omisso a situação. A
presença dela nunca me agradou e devo confessar que sou uma pessoa muito
tolerante.... - ela bufa. - Mas creio que muito bem casado como está, a
presença desta libertina não dure muito entre nós, minha cunhada.
- Estás querendo dizer que uma
ex-amante de meu marido está nessa casa? - ela pergunta, sentindo a raiva
florescer. - É ótimo saber que Henri preserva tipos de amizade como essas.
Estou louca pra conhecer essa mulher!
- Sim, mas fique calma, minha cunhada.
Esta mulher não é digna nem de nossa ira. - Virginie disse olhando pra ela -
Você é a mulher do meu irmão e dona desta casa! Você é quem deve coloca-la em
seu lugar. - Virginie segura a mão dela - Não permita que a raiva lhe tire a
razão, hm? Você não está sozinha. - Disse solidária a cunhada.
- Certo. - ela disse, respirando
fundo. - Acho melhor nós descermos.
Virginie assentiu e as duas
levantaram. Pouco depois elas adentram a grande sala. Henri sorria abertamente
quando chegaram. Ele vê sua esposa e irmã paradas olhando-os. Então ele levanta
e vai até a esposa para busca-la. Virginie segue logo atrás.
- Annemarie, está é minha adorável
esposa Genevieve. - virando-se para a esposa disse - Querida, está é
Annemarie.. Uma grande amiga que veio nos visitar.
A dançarina francesa a olha de cima a
baixo, observando cada um de seus traços. A esposa de Henri era linda, tinha de
admitir e isso a fez borbulhar de raiva. Aquela coisinha havia acabado com suas
chances de se tornar esposa de Henri. Engolindo o ódio, ela abriu seu melhor
sorriso e deu dois beijos no rosto da rainha.
- És uma linda moça... Digo moça
porque és tão novinha, tens carinha de bebê.
Genevieve sorriu falsamente, olhando
para a ruiva a sua frente.
- E és uma bela senhora. Digo senhora
porque tens carinha de uma mulher mais velha. - disse, ácida com um sorriso.
Virginie cobriu os lábios com a mão
para conter o riso. Henri olhou surpreso para a esposa. Sua resposta foi mais
cortante que a lâmina de uma espada nova.
Virando de lado apresentou a irmã.
- Está é Virginie... Veja como está
moça agora. - ele disse com um sorriso orgulhoso para a irmã.
- Realmente, crescestes tanto,
Virginie. Lembro-me muito bem de você ainda uma adolescente... - ela sorriu,
dando dois beijos na princesa. - Fico contente que esteja com uma aparência
feliz, sempre a vi muito cabisbaixa, querida.
- Sim querida Annemarie, estou deveras
feliz. Também como não haveria de estar? O rubor de minha face se deu por não
ter de aturar infortúnios em nossa família e claro, eu seria muito injusta se
não citasse como me sinto honrada em ver meu amado irmão casado com uma mulher
decente feito a princesa Genevieve. - Ela disse cada palavra com um sorriso nos
lábios.
- Eu posso imaginar que sim. -
Annemarie sorriu, sarcástica. - Até porque, que homem em sã consciência não
estaria contente em casar-se com uma mulher tão inocente e decente quanto esta
linda princesa, não é mesmo?
- Sim. Creio que meu amado marido
pense o mesmo, já que és tão apaixonado e obcecado por mim. - Genevieve disse
com um sorriso.
Henri viu uma briga eminente entre
elas se não fizesse alguma coisa e rápido. Ele trava o maxilar e diz
firmemente:
- Sim minha esposa, tens razão, mas
não é necessário que diga isto em nossa sala de estar. - Annemarie olhou a
jovem esposa e conteve o sorriso ao ver Henri se dirigir a ela daquela maneira.
- Annemarie ficará no castelo por alguns dias e precisamos ser cordiais com
nossas visitas, entendeu?
Virginie olhou incrédula para o irmão.
Ele não podia destratar a esposa e muito menos na frente daquela mulher
horrível. Respirando fundo ela se conteve para não piorar o clima.
Genevieve se virou para Henri com
olhar gélido, mas manteve um sorriso.
- Claro que sim, meu marido. Para isso
temos vários serviçais que está disposto a servi-la, tenho certeza que serão
bastante cordiais e tratará muito bem. E a senhorita também terá a você, que
tenho certeza que estás bastante solicito para atender todos os seus desejos.
Mimos não irão faltar a ela. - disse sarcástica.
Henri respirou fundo entendo onde ela
queria chegar com aquela resposta. Virando-se para Annemarie disse:
- Sua estadia é bem vinda nessa casa
sempre que quiser, querida. Vou pedir a Paolo que providencie seus aposentos com
as criadas. E se precisar, pode solicitar qualquer uma delas como disse minha
amada esposa.
- Obrigada, meu querido. Eu realmente
gostaria de descansar, a viagem de navio da França pra cá é muito cansativa...
- ela diz, soltando um suspirou ao olhar pra ele. Se virou para Genevieve e
sorriu. - Eu realmente adorei conhecê-la, Genevieve. Espero que podemos ficar
mais íntimas, tenho certeza que temos bastante coisas em comum.
- Oh... Eu não diria o mesmo, já que
me parece uma pessoa tão vivida. - Genevieve sorriu, docemente. - Sugiro que vá
mesmo descansar, querida, uma soneca fará muito bem à você, estás com uma
aparência cansada, não acha, minha cunhada?
- Acho sim, minha cunhada. - Virginie
concordou sorrindo - Nessa idade o repouso ajuda muito no alívio de dores...
Sobre tudo a quem dançou por anos a fio, não é?
Henri se irrita e não consegue se
conter.
- Já chega, Virginie. Deixe nossa
convidada descansar da viagem exaustiva. Volte a ler seus livros e nos deixe
resolver nossas diferenças como adultos. - ele disse com dureza.
Virginie engoliu em seco aquela bronca
desnecessária. Ele nunca enxergou a mulher má por trás do decote farto daquela
francesa. Com o choro preso na garganta a princesa fecha o semblante e vira o
rosto para esconder o quanto queria chorar naquele momento.
- Então está ótimo, meu marido. Sua
hospede vai descansar, Virginie e eu vamos voltar à biblioteca. Tudo certo?
Assim com certeza resolveremos os nossos problemas como adultos. - ela diz,
séria dessa vez. - Vamos, Virginie?
Virginie não olhou mais para o irmão e
saiu da sala junto com a cunhada.
Assim que entraram biblioteca,
Genevieve e Virginie esbravejaram. Não podiam acreditar que Henri estava
defendendo aquela mulher. Já não bastava colocar a ex-amante dentro de sua
própria casa, sendo um homem casado, ainda teve audácia de ser grosso com as
duas para defender aquela dançarina fútil! Com raiva, as duas passaram o resto
do dia da biblioteca, recusando o almoço e o chá das três horas. Estavam
evitando ao máximo encontrar-se com Henri e sua adorável hóspede.
Às cinco da tarde, Nina bateu na porta
da biblioteca, entrando com uma bandeja de chá e biscoitos. As mulheres já
estavam um pouco mais calmas e trataram a empregada com a mesma docilidade de
sempre. Nina sorriu, dizendo que estava muito contente. Em um hora iria sair do
trabalho, pois tinha uma festa na cidade humilde onde morava. Genevieve
perguntou como seria tal festa e com animação, a empregada disse que haveria
muita música, comida e dança. Uma verdadeira festa do povo operário, como ela
mesma nomeou.
Genevieve sorriu de lado e olhou pra
Virginie, ouvia atentamente o que a empregada dizia. Sentia enorme saudade da
época em que saia de casa para ir a essas festas, que eram sempre melhores do
que qualquer uma daquele povo nobre e chato. Quando a empregada se calou, ela
disse:
- E nessa festa, Nina... Caberia mais
três pessoas? - ela perguntou.
A empregada franziu o cenho.
- Sempre cabe mais um, senhora
Genevieve. Mas... Desculpe-me perguntar, quem sera tais pessoas?
- Eu, Virginie e meu irmão que está na
cidade, Richard. Poderíamos ir?
Virginie arregalou os olhos, olhando
com espanto para Genevieve. Nina olhava do mesmo jeito.
- Mas, senhora... Não é uma festa de
sua classe, por Deus! E o rei Henri jamais permitiria que as senhoras fossem.
- Mas o rei não precisa saber, Nina. -
ela sorriu. - Creio que Vossa Majestade estará bastante ocupado com sua hóspede
e nós estamos aqui, sozinhas nesse mausoléu. Por favor, nos dê um pouco de
diversão. Adoraríamos ir, não é mesmo, Virginie?
- Genevieve, eu não posso... Henri
ficaria furioso.. - ela disse com medo da aventura ao qual estava sendo
convidada - E eu não conheço ninguém... E se nos reconhecerem lá? Santo Deus!
- Eu tenho experiência nessas festas,
Virginie e pode ter certeza de uma coisa: o diferencial desse povo é que eles
não te tratam pelo seu status e sim por quem você é. E tem outra coisa... - ela
sorriu de lado. - Meu irmão vai, eu tenho certeza que sim, querida. - ela
piscou pra cunhada, para que entendesse o que estava querendo dizer.
Enrubescendo a face Virginie sorriu
mordendo levemente o lábio.
- Certo, acabaste de convencer-me,
minha cunhada. - ela sorriu. - Como faremos para ir? Henri não poderá sonhar
com nossa fuga...
- A que horas irá embora, Nina?
- Bem... Eu sairei às seis e meia,
quando já estiver de noite. E irei de charrete, se não se importarem, cabem
mais três pessoas. Ficará um pouco apertado, mas dará para ir. - ela diz, um
pouco tímida.
- Perfeito. A noite é ainda melhor, os
arredores do castelo esta mais vazio. Nós podemos sair pelos fundos. Meu irmão
viria aqui me visitar e ele deve chegar por esse mesmo horário, então dará tudo
certo. Temos de ser discretas, Nina.
- Pode contar com minha total
discrição, senhoras. - ela sorri. - Se me derem licença, vou sair para me
arrumar e colocar a charrete do lado de fora do castelo, assim será mais fácil
para sairmos. - Genevieve assentiu e a criada fez uma pequena reverência. - Com
licença.
Assim que a empregada saiu, Genevieve
sorriu e pegou a mão da cunhada.
- Prepare-se, minha amiga, conhecerás
uma festa de verdade! - ela ri, ansiosa
- Eu mal posso esperar. - Ela disse
sorrindo ansiosa.
- Então eu acho melhor nos arrumarmos!
Vamos usar um vestido de capuz, será melhor para nos esconder no caminho. -
Genevieve disse, se levantando.
Rindo como duas adolescentes, as duas
pegaram seus vestidos e se trancaram no quarto de Virginie. Conversavam e
sorriam enquanto se arrumavam e se maquiavam. Quinze minutos antes da hora
marcada, Nina bate na porta do quarto falando que os arredores do castelo
estavam praticamente desertos e que o rei estava na sala de estar com
Annemarie, entretido em uma conversa. Genevieve sentiu o sangue ferver, um
ciúme latente tomou conta dela, mas apenas engoliu o sentimento e saiu com
Virginie atrás da empregada.
Continua...
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